O cinema e a tecnologia na voz do ator/ da atriz

Falar de dublagem de cinema no Brasil normalmente significa tratar de dublagem de língua. Aliás, o gosto (ou a preguiça?) do brasileiro por filmes dublados tende a dar um artigo para este blog daqui a algum tempo. Por enquanto, fiquemos na exaltação e exposição do trabalho de dublagem ou redublagem (ADR), que hoje é comum no processo de produção dos audiovisuais, sobretudo nos filmes.

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Para quem não sabe: no atual processo de produção do cinema, o som das vozes é gravado durante as passagens de atuação/ criação da cena pelos atores. Mas nem sempre esse som fica livre de ruídos, o que acaba gerando a necessidade de regravar o som a partir das imagens das atuações já captadas. Esse processo costuma ser denominado ADR (de ‘Automatic Dubbing Replacement’). É dele este post.

O principal ponto a destacar sobre essa dublagem é que esse tecnologia reformula (se é que não podemos dizer que já reformulou) a forma como os atores atuam e como as personagens acabam representadas. É uma tecnologia de produção, sem dúvida nenhuma, mas afeta diretamente na maneira com a qual os atores interpretam, porque a voz é recolocada vendo a cena já gravada. Isso muda tudo. Além de ser uma técnica a mais para a adoção, os atores precisam se acostumar a fazer a repetição expressiva e sincronizada com a cena previamente realizada.

No caso das animações – no Brasil mais conhecidas por ‘desenhos animados’ – isso é mais comum, mas nem por isso menos difícil. Nesse caso é preciso notar a soma entre a imagem da personagem e a voz do ator na dublagem para a composição da personagem. Essa personagem não é, então, nem uma coisa nem outra, mas o resultado desse hibridismo entre imagem e som produzidas separadamente.

Atualmente, nos filmes acontece algo semelhante, portanto, ao que já existe na animação há quase um século. Nessa dublagem de si próprio (ainda que enquanto personagem), o ator se depara com essa relação de hibridismo entre sua ação anteriormente captada com a voz agora necessária. Se atuação corporal e vocal aconteciam (acontecem) sempre juntas no teatro, no cinema (e eventualmente na TV) essa separação na produção é cada vez mais comum. Mais uma vez, o processo do cinema se afasta do teatro e, novamente, vemos aqui uma relação patente de nova tecnologia surgindo e alterando a arte. Ou será a arte criando e alterando tecnologias?